Controle no elevador
Eu perco no mínimo 35 segundos no elevador. Isso na descida. Na subida perco mais alguns segundos. Elevador já foi um lugar de reflexão. Com sorte a viagem pode ser solitária. Mas sempre tem alguém para romper o isolamento do tempo e do espaço.
Essa viagem, no entanto, está se tornando cada vez mais insólita. Além de espelhos por toda a parte, os elevadores estão sendo equipados por câmeras espiãs.
Caralho, para que isso? Tudo tem que ser filmado. Nem posso mais me olhar pelo espelho, fazer careta ou apreciar meus cravos nasais.
O Big Brother cresce e invade nossa vida. Falta uma telinha para dizer o que temos que fazer enquanto viajamos por elevadores. Imagine câmeras em carros, em quartos nos saguões. Não mais vou poder sorrir para mim.
Será que essa vigia se faz necessária? Os canônes da segurança adoram essa idéia. Colocar todos sob suspeita com o objetivo único de prever o sexo dos anjos. Todos são culpados antes que provem a inocência. E daí a vigia faz bem! A sociedade deveria agradecer.
Caguei!!! Para que segurança. Até parece que a vigilância urbana vai diminuir a violência. Afinal, no escuro todos os gatos são pardos. E as câmeras nunca chegam onde deveriam. Onde, realmente, poderiam ajudar mais do que cercear.
Mas a segurança é o sonho da classe média. Um sonho medroso. Receosa de perder tenta a todo custo manter o status quo. A conservação dos valores é o ponto alto da hipocrisia social. Com medo de perder a burguesia não quer mudar. E se não mudar vai acabar perdendo muito mais.
Vou voltar a minha viagem no caixote espelhado. Subo e desço vigiado. E cada vez com mais sofisticação. Além da imagem... o som.


Controle no elevador
Isso tudo é uma grande verdade
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